Só sobrou apagar a luz. Foi a última a sair. De tudo aquilo que chamaram de lar restara apenas o calendário na cozinha, este ninguém quis levar. Brigaram pela tevê, dvd, o som. Ninguém quis a cama, virou presente. Ela quis as fotos, do tempo que ainda era bom, o jeito dele dizer o mesmo foi furtar-lhe o caderno de desenhos, do tempo de bar, de desenho em guardanapo, de beijo vermelho no espelho formando moldura, o jeito de matar a saudade de um dia de ausência.
Ele arrumou os DVDs, os vinis, os CDs. Deixou pra ela os favoritos, era o jeito de dizer: não há mais tempo..
Ela pegou o primeiro livro dado de presente a ele, que veio sem dedicatória, e pintou: e todo o pra sempre que nos for permitido. Foi o jeito de dizer ‘fizemos o possível’.
Era tudo eles, o quarto, a cama, a sala, a cozinha. Era eles desistindo.
Era eles a cinemania. Era eles a musicmania.
Faziam tanto sentido um pro outro, que ninguém teve tempo de questionar. E por um instante esqueceram o mundo. O mundo e todo momento de antes e tudo que seria depois de antes e do que seria de antes do instante e resolveram que eram felizes – o erro crasso. Pecaram por não serem medíocres, por sonharem um dia, por não se limitarem a um primeiro encontro, mas por escolherem todos como primeiro.
E um dia o que era lógico passou a incomodar e resolveram questioná-los, eles tentaram alegar ilógica dentro de uma lógica só deles. E bastava. E então se acharam injustos e infiéis, descobriram que não havia nada que justificar, depois de terem feito isso tanto, e agora sobrara o calendário na parede. O que sempre sobra; os dias de antes.
sábado, 10 de outubro de 2009
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Poema de amor.
- A merda!
- Vá te embora com aquela puta! Sua bixa.
Isso era mais que a paciência suportava. Ia mostrar a ela.
Agarrou-a pelos cabelos. Bixa não. Era raiva, era cansaço.
Safada, riu, encheu a boca, cada letra um prêmio, um gozo: Bixa.
Pego-a ali mesmo, na cozinha. Ela gritou, gozou.
A cada riso era mais raiva, mais asco. Não era tesão, não tinha outra. Ela era outra, ela era o escárnio, ódio, o nojo.
Não sabiam, mas namoro que retorna derrama.
Queria feri-la. Queria o namoro de fim de semana, a transa da madrugada, queria.. o namoro que traz verão.
Terminou o serviço, quis cuspir de nojo. Ela ia gostar.
Prometeu lhe uma surra, ela gemeu.
Pegou a carteira, disse que não voltava, a gritaria recomeçara, eram lágrimas, ela enlouquecerá.
- Eu morro. Te mato desgraçado e depois me mato também!
- Não agüento mais você Luiza. Não há mais respeito.
- Mato ela também!
Ganhou a rua, deixou o frio e nenhuma lágrima, essas ficaram pra ele.
Não lhe valeu.
- Vá te embora com aquela puta! Sua bixa.
Isso era mais que a paciência suportava. Ia mostrar a ela.
Agarrou-a pelos cabelos. Bixa não. Era raiva, era cansaço.
Safada, riu, encheu a boca, cada letra um prêmio, um gozo: Bixa.
Pego-a ali mesmo, na cozinha. Ela gritou, gozou.
A cada riso era mais raiva, mais asco. Não era tesão, não tinha outra. Ela era outra, ela era o escárnio, ódio, o nojo.
Não sabiam, mas namoro que retorna derrama.
Queria feri-la. Queria o namoro de fim de semana, a transa da madrugada, queria.. o namoro que traz verão.
Terminou o serviço, quis cuspir de nojo. Ela ia gostar.
Prometeu lhe uma surra, ela gemeu.
Pegou a carteira, disse que não voltava, a gritaria recomeçara, eram lágrimas, ela enlouquecerá.
- Eu morro. Te mato desgraçado e depois me mato também!
- Não agüento mais você Luiza. Não há mais respeito.
- Mato ela também!
Ganhou a rua, deixou o frio e nenhuma lágrima, essas ficaram pra ele.
Não lhe valeu.
sábado, 12 de setembro de 2009
O tempo que se tem
Ela era daquelas típicas senhoras. Nascera condenada ao mesmo destino de tantas outras: tornaria-se mãe.
Um casamento arranjado, ela mal tinha os 23. Quando pequena sonhou ser bailarina, toda feminilidade permitida e ainda mais, devorar o mundo só, assim como nascera, só.
Aos poucos foram limitando-a e com menos que 15 já sonhava o vestido o ideal, a música ideal.
Depois dos 15 arranjara um sujeito respeitável que ela chamava noivo. O sujeito passará os quarenta e cultivava falhas capilares, achando que ninguém as notará penteava os poucos fios de maneira à semi cobrí-las, para aumentar o efeito colocava doses de óleo para que ficassem parados a seu modo. Tinha um emprego na prefeitura e contava vantagens à garota, que sonhava uma casa de dois andares.
Antes dos 30 se achava feliz, já tinha dois filhos e caminhava ao terceiro, era uma bênção dos céus.
Antes do matrimônio ele a levava ao ballet, vez por mês. A empolgação era tanta que ela nem notava o homem dormir. Era tanta emoção o pas de deux, sentia-se ali, era tudo o que deseja pra si, mal respira ou piscava, os olhos chegavam a deixar escorres duas lágrimas, o corpo se inclinava e as mãos vinham a boca. Levantava e aplaudia aflita, como se aplaudisse um sonho.
Depois, veio o casamento, cansaço e o ballet fora sendo prometido sempre ao outro mês, depois ela parou de pedir, começou a colecionar filhos e contentou-se com a tevê.
Veio o primeiro casamento do filho e era ele fora de casa e então eram todos fora de casa. O sujeito não vivera pra ver o filho mais velho se formar, ou a menina no altar.
Ela ficou. A casa plana, sem cerca branca, sem filhos a depender, sem o vestido que havia sido passado à menina. Ela ficou.
Ela permaneceu sentada diluindo o dia, só.
Ela ficou. Depois de algumas horas, atônita na poltrona, uma lágrima fugiu do olho e a emoção pulsara, saiu um sorriso tímido, a muito sufocado: se descobriu bailarina!
-----
Já se desobriu?
Ou ainda espera a solidão a porta?
Eu?
Atriz. Codjuvante umas vezes.
Agora? Quem sabe..
Um casamento arranjado, ela mal tinha os 23. Quando pequena sonhou ser bailarina, toda feminilidade permitida e ainda mais, devorar o mundo só, assim como nascera, só.
Aos poucos foram limitando-a e com menos que 15 já sonhava o vestido o ideal, a música ideal.
Depois dos 15 arranjara um sujeito respeitável que ela chamava noivo. O sujeito passará os quarenta e cultivava falhas capilares, achando que ninguém as notará penteava os poucos fios de maneira à semi cobrí-las, para aumentar o efeito colocava doses de óleo para que ficassem parados a seu modo. Tinha um emprego na prefeitura e contava vantagens à garota, que sonhava uma casa de dois andares.
Antes dos 30 se achava feliz, já tinha dois filhos e caminhava ao terceiro, era uma bênção dos céus.
Antes do matrimônio ele a levava ao ballet, vez por mês. A empolgação era tanta que ela nem notava o homem dormir. Era tanta emoção o pas de deux, sentia-se ali, era tudo o que deseja pra si, mal respira ou piscava, os olhos chegavam a deixar escorres duas lágrimas, o corpo se inclinava e as mãos vinham a boca. Levantava e aplaudia aflita, como se aplaudisse um sonho.
Depois, veio o casamento, cansaço e o ballet fora sendo prometido sempre ao outro mês, depois ela parou de pedir, começou a colecionar filhos e contentou-se com a tevê.
Veio o primeiro casamento do filho e era ele fora de casa e então eram todos fora de casa. O sujeito não vivera pra ver o filho mais velho se formar, ou a menina no altar.
Ela ficou. A casa plana, sem cerca branca, sem filhos a depender, sem o vestido que havia sido passado à menina. Ela ficou.
Ela permaneceu sentada diluindo o dia, só.
Ela ficou. Depois de algumas horas, atônita na poltrona, uma lágrima fugiu do olho e a emoção pulsara, saiu um sorriso tímido, a muito sufocado: se descobriu bailarina!
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Já se desobriu?
Ou ainda espera a solidão a porta?
Eu?
Atriz. Codjuvante umas vezes.
Agora? Quem sabe..
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Psicografia.
Estou pensando em juntar minhas memórias, pegar todo aquele diário maltrapilho e fazer uma canção. Outrora pensei num soneto. Num diálogo com Chico, vi que não há solução para meu caso, para toda essa turbulência na minha cabeça que me toma de assalto: preciso de um tamborim.
Há discordâncias. E do batuque quero uma valsa. Do silêncio faço um sopro. E quero tudo de novo, tudo novo: da bossa quero um pouco, que samba é essência, toda cadência.
Entrar feito fanfarra que me reste ao menos a farra.. Espreitar, esse o jeito de me contar, o não-revelar. De memória, então, não resta nada, é tudo farsa, é coisa armada. Andou pensando em se assumir, por a timidez pra sumir.
Assovia por ai. A tragicomédia da garota do diário, das histórias sem drama, trama ou tramela, da personagem que sonha ser, e aquela que revela.
É por fim aquilo que fizeram dela. É toda farsa pintada em aquarela.
Há discordâncias. E do batuque quero uma valsa. Do silêncio faço um sopro. E quero tudo de novo, tudo novo: da bossa quero um pouco, que samba é essência, toda cadência.
Entrar feito fanfarra que me reste ao menos a farra.. Espreitar, esse o jeito de me contar, o não-revelar. De memória, então, não resta nada, é tudo farsa, é coisa armada. Andou pensando em se assumir, por a timidez pra sumir.
Assovia por ai. A tragicomédia da garota do diário, das histórias sem drama, trama ou tramela, da personagem que sonha ser, e aquela que revela.
É por fim aquilo que fizeram dela. É toda farsa pintada em aquarela.
domingo, 12 de abril de 2009
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As pessoas têm reações diferentes quando expostas a situações.
É toda uma convenção, um trato que tramaram. E assim fora. Ela sabia que as coisas aconteceriam inevitavelmente. Ela sabia, mas não evitou, talvez porque não houvesse mais tempo ou força de vontade. Se deixou levar, mergulhou.
Não sabe do medo dos raios ou da cicatriz da infância, se quer sabe da boa convivência com o silêncio, com o estar só.
Em meio à multidão senti-se só e isso vem de muito antes. Uma noite tudo fora diferente, alguém de muita luz surgiu e sua voz transbordou o recinto e parece que transformou toda a realidade de antes.
Ela é fraca, gritou. Ninguém deu atenção. Bobagem. Fora sempre resolvida e agora não sabe o que fazer, o que dizer, como agir!
Decidiu-se pelo pontoevirgular. A sutileza do pontovirgular. A calmaria, facilidade e a esperança que fica.
É toda uma convenção, um trato que tramaram. E assim fora. Ela sabia que as coisas aconteceriam inevitavelmente. Ela sabia, mas não evitou, talvez porque não houvesse mais tempo ou força de vontade. Se deixou levar, mergulhou.
Não sabe do medo dos raios ou da cicatriz da infância, se quer sabe da boa convivência com o silêncio, com o estar só.
Em meio à multidão senti-se só e isso vem de muito antes. Uma noite tudo fora diferente, alguém de muita luz surgiu e sua voz transbordou o recinto e parece que transformou toda a realidade de antes.
Ela é fraca, gritou. Ninguém deu atenção. Bobagem. Fora sempre resolvida e agora não sabe o que fazer, o que dizer, como agir!
Decidiu-se pelo pontoevirgular. A sutileza do pontovirgular. A calmaria, facilidade e a esperança que fica.
domingo, 18 de janeiro de 2009
Omisso.
Não cante. Fora vetado os excessos.
Não grite. Exaltados o façam longe.
E assim, pouco a pouco restara: respire longe daqui.
****
Por mais que se faça ou tente contornar ela domina, caminha devagar, seduz e como sempre ilude. Domina primeiro a mente, eficaz que é, e torna o abandono impossível. Depois é corpo, é pele. Chega a transbordar pelos poros, torna revoltos os cabelos e enfim é transparente. Objeto conquistado. Objeto derrotado.
Agora é cama, é dor, é vergonha.
Não grite. Exaltados o façam longe.
E assim, pouco a pouco restara: respire longe daqui.
****
Por mais que se faça ou tente contornar ela domina, caminha devagar, seduz e como sempre ilude. Domina primeiro a mente, eficaz que é, e torna o abandono impossível. Depois é corpo, é pele. Chega a transbordar pelos poros, torna revoltos os cabelos e enfim é transparente. Objeto conquistado. Objeto derrotado.
Agora é cama, é dor, é vergonha.
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